Um Kit de Ferramentas sobre o Uso do Contradiscurso para Combater o Discurso de Ódio Online

 

 

 

Sobre o Contradiscurso

1 Introdução

Grande parte do discurso público ao redor do mundo tornou-se polarizado e tóxico, especialmente no ambiente online. Para resolver isso, alguns países tentaram recorrer à legislação, mas criminalizar o discurso não impede que ele cause danos, especialmente na esfera digital, ilimitada e sem fronteiras. O mesmo vale para a moderação de conteúdo praticada por empresas privadas de redes sociais, ainda que elas removam milhões de publicações diariamente por violações da lei e de suas próprias regras internas. Existe outro método para melhorar o discurso público que, em grande medida, ainda não recebeu a devida atenção: o contradiscurso de base comunitária. Ele merece mais atenção e estudo. Afinal, mais do que a lei ou as forças de segurança, são as normas de grupo que têm o maior impacto no comportamento e no discurso humano fora do ambiente online: as regras não escritas, mas poderosas, pelas quais as comunidades se governam mutuamente.

As normas de comportamento sempre foram ensinadas e reforçadas em inúmeras conversas não registradas, principalmente por pessoas que conhecem seu público pessoalmente – pais, professores, colegas, religiosos, vizinhos – e não por governos, empresas ou outras instituições. Isso não funciona exatamente da mesma forma no ambiente online, pois a internet transformou a comunicação humana de maneiras fundamentais e relevantes: (1) as pessoas podem falar e agir sem os mesmos constrangimentos sociais que sentem fora do ambiente digital; (2) desconhecidos, inclusive de origens muito diversas, comunicam-se entre si com uma frequência muito maior do que antes; e (3) as conversas online são frequentemente registradas e podem ser estudadas.

A comunicação na maioria das plataformas de redes sociais é regulada pelas empresas que as possuem e operam e, em menor medida, por governos que tentam obrigar essas empresas a suprimir certas formas de discurso. Essas formas de controle verticalizadas têm dominado, até agora, os debates de políticas públicas sobre como melhorar o discurso online. Enquanto isso, no entanto, milhares de pessoas silenciosamente tomaram a iniciativa de praticar o contradiscurso online: tentando impor suas normas discursivas ao responder a conteúdos que consideram odiosos, prejudiciais ou ofensivos.

O DSP busca as melhores respostas a conteúdos prejudiciais, especialmente aqueles que aumentam o risco de violência intergrupal — o que denominam discurso perigoso. Há alguns anos, a equipe identificou alguns praticantes de contradiscurso em ação. A partir disso, começaram a procurar mais e, gradualmente, encontraram muitos outros.

Alguns atuam sozinhos, e muitos praticam o contradiscurso juntos, em grupos bem coordenados que chegam a milhares de pessoas. São iniciativas genuinamente de base: todos os praticantes do contradiscurso atuam voluntariamente, sem remuneração.

O DSP os estudou e estudou seus esforços, produzindo o primeiro estudo etnográfico sobre praticantes de contradiscurso, um artigo detalhado sobre o que buscam alcançar e uma revisão das pesquisas sobre seu impacto real. Em geral, seus objetivos são bastante semelhantes, mas suas técnicas são notavelmente diferentes. A partir de todo esse trabalho – que, até onde sabemos, representa o maior acervo de pesquisas sobre contradiscurso no mundo – o DSP elaborou o conteúdo deste kit de ferramentas.

2. O que é o Contradiscurso?

O contradiscurso é a prática de responder a discursos considerados prejudiciais ou ofensivos. Pode assumir muitas formas, como contestar, refutar ou criticar discursos prejudiciais, amplificar pontos de vista alternativos, fornecer informações precisas e promover empatia e compreensão. Organizações e pesquisadores utilizam definições diferentes de contradiscurso. A seguir, apresentam-se exemplos representativos.

  • O Dangerous Speech Project define o contradiscurso como “qualquer resposta direta a discursos odiosos ou prejudiciais que busca enfraquecê-los.” O DSP distingue o contradiscurso da contranarrativa, que consiste em oferecer uma visão contrária a outra sem responder a um conteúdo específico – um ensaio feminista seria uma contranarrativa à misoginia, por exemplo.
  • O Conselho da Europa também distingue o contradiscurso da contranarrativa, que denomina “discurso alternativo.” Segundo o Conselho, “enquanto o contradiscurso é uma reação curta e direta a mensagens de ódio, o discurso alternativo geralmente não desafia nem se refere diretamente ao discurso de ódio, mas muda o enquadramento da discussão.”
  • Nadine Strossen, defensora das liberdades civis e ex-presidente da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), considera a contranarrativa uma forma de contradiscurso. Ela descreve o contradiscurso como “um termo abreviado para qualquer discurso que busca contrapor ou reduzir os potenciais impactos negativos do discurso de ódio ou de outros discursos controversos. Uma forma importante de contradiscurso é a educação ou a informação que contraria as ideias e atitudes que o discurso problemático reflete.”
  • A Liga Mannerheim pelo Bem-Estar Infantil escreve que “o contradiscurso é o oposto do discurso de ódio” e que “é uma expressão humana e empática. O propósito do contradiscurso é mostrar que toda pessoa tem valor. Em situações cotidianas, o contradiscurso significa defender a pessoa alvo de discriminação.”
  • Os pesquisadores de contradiscurso Joshua Garland e colegas o definem como “uma forma de resposta cidadã a conteúdos odiosos para desencorajá-los, interrompê-los ou oferecer apoio à vítima, por exemplo, apontando falhas lógicas no comentário odioso ou usando fatos para refutar a desinformação.”

Embora essas definições distinguam-se entre si, todas descrevem o contradiscurso como uma resposta ao discurso de ódio, com o objetivo de diminuir seus efeitos prejudiciais. As variações entre as definições também são relevantes. Estudiosos e profissionais divergem, por exemplo, sobre se o contradiscurso é sempre civilizado. Alguns sustentam que sim – como a Liga Mannerheim pelo Bem-Estar Infantil, que o define como “expressão humana e empática” – mas a maioria das definições não inclui tal qualificação. Outra diferença diz respeito ao escopo das definições: se são estreitas (exigindo alguma ligação entre o discurso original e a resposta) ou amplas (agrupando as categorias de contradiscurso e contranarrativa/discurso alternativo).

Responder a discursos ofensivos não é algo novo – as pessoas há muito tempo expressam, de uma forma ou de outra, sua discordância em relação a comentários que consideram prejudiciais. Mas o conceito de contradiscurso como resposta ao ódio é relativamente recente.

O termo “counterspeech” (também grafado “counter-speech”) apareceu em publicações impressas pelo menos desde o início do século XIX, embora em todos os casos iniciais significasse simplesmente uma refutação de qualquer discurso – não necessariamente textos odiosos ou prejudiciais. Por exemplo:

  • “Discurso e contradiscurso não se encaixavam. Os oradores falavam por cima uns dos outros.” (Escrito em 1918 em The Independent, vol. 95, revista semanal publicada em Nova York entre 1848 e 1928.)
  • “Pois o primeiro deles contém três discursos sobre o amor, um de Lísias em favor da posição de que um rapaz deveria favorecer um amante frio e impassível em vez de um arrebatado e apaixonado, e dois de Sócrates – o primeiro um discurso suplementar, no mesmo sentido em que tais discursos eram habituais nos tribunais de justiça para defender a mesma causa que o precedente; o outro, ao contrário, um contradiscurso em favor do pretendente apaixonado tão severamente acusado no primeiro.” (Das Introduções aos Diálogos de Platão, de Schleiermacher. 1836). A noção contemporânea de contradiscurso é bem mais recente e, como ilustrado na figura abaixo, o termo tornou-se muito mais comum nos últimos anos.

Figura do Google Books Ngram Viewer – uso dos termos em livros em língua inglesa de 1820 a 2019

Nos Estados Unidos, o conceito de contradiscurso é frequentemente atribuído ao juiz da Suprema Corte Louis D. Brandeis, que escreveu, em um famoso voto de 1927, que responder ao discurso prejudicial – e não censurá-lo – é a melhor resposta. Embora tenha se unido aos demais membros da Corte para manter a condenação de uma mulher californiana que havia ajudado a fundar o Partido Trabalhista Comunista da América, Brandeis declarou:

“Se houver tempo para expor por meio do debate a falsidade e os enganos, para afastar o mal pelos processos da educação, o remédio a ser aplicado é mais discurso, não o silêncio forçado.”

Advogados americanos frequentemente chamam isso de doutrina do contradiscurso, embora Brandeis nunca tenha usado o termo. Com base nela e em outras ideias correlatas, a Suprema Corte interpretou de forma muito ampla a disposição sobre liberdade de expressão da Constituição dos EUA, tornando-a a legislação nacional mais protetora da liberdade de expressão do mundo.

3. O que é uma Contranarrativa?

Uma contranarrativa é uma perspectiva ou história que desafia ou se opõe a outra visão sobre determinado tema, questão ou evento. Ela apresenta uma interpretação, análise ou compreensão alternativa de eventos históricos, questões sociais, normas culturais ou ideologias políticas.

As contranarrativas são frequentemente desenvolvidas por grupos ou indivíduos marginalizados que contestam ideias ou crenças predominantes que sustentam estereótipos, opressão ou exclusão. Seu objetivo é dar voz àqueles que frequentemente não são ouvidos ou são mal representados nas narrativas dominantes. Campanhas de contranarrativa também são comumente utilizadas para desafiar o extremismo.

Por vezes, as campanhas são produzidas por ONGs ou governos e assumem a forma de vídeos curtos, anúncios ou até videogames desenvolvidos para viralizar entre o público-alvo. Average Mohamed, uma série de vídeos animados sobre um imigrante somali que vive nos Estados Unidos, criada por uma ONG homônima, é um bom exemplo desse tipo de esforço contranarrativo. O título é também o nome do personagem principal dos vídeos, que desafiam a propaganda usada por grupos extremistas como o Estado Islâmico para doutrinar e recrutar jovens muçulmanos.

Outras contranarrativas são difundidas por campanhas de base, frequentemente nas redes sociais em torno de uma hashtag comum. Um exemplo desse tipo de resposta é a campanha #MyFriend, lançada em 2015 pela ativista birmanesa e ex-presa política Wai Wai Nu. O discurso perigoso direcionado contra muçulmanos em Mianmar — especialmente nas redes sociais — recebeu atenção de pesquisadores e profissionais de direitos humanos e, em 2018, investigadores das Nações Unidas afirmaram que as redes sociais desempenharam um “papel determinante” na campanha de crimes contra a humanidade e genocídio em que o exército de Mianmar matou mais de 10 mil muçulmanos Rohingya.

A campanha #MyFriend encorajou os birmaneses a publicar selfies com amigos de religiões e etnias diferentes, acompanhadas das hashtags #myfriend (‘meu amigo’) e #friendshiphasnoboundaries (‘a amizade não tem fronteiras’), com o objetivo de reduzir “todas as formas de discriminação, ódio, discurso de ódio e racismo extremo com base em religião, etnia, nacionalidade, cor e gênero” em Mianmar e de incentivar “amor e amizade” entre os grupos. Em Mianmar naquele período, manifestar-se diretamente contra o governo significava arriscar a prisão ou algo pior. A campanha #myfriend foi uma rejeição sutil, mas clara, às mensagens que ensinavam que os muçulmanos Rohingya representavam uma ameaça a Mianmar e à sua maioria budista.

4. Os Parceiros

O projeto Future of Free Speech

O projeto Future of Free Speech (FFS) foi lançado em 2020 pelo think tank dinamarquês Justitia e, desde 2023, é uma colaboração entre a Justitia e a Universidade Vanderbilt.

O Valor da Liberdade de Expressão

A liberdade de expressão é o baluarte da liberdade; sem ela, nenhuma sociedade livre e democrática foi jamais estabelecida ou prosperou. A liberdade de expressão tem sido a base de um progresso científico, social e político sem precedentes, que beneficiou indivíduos, comunidades, nações e a própria humanidade. Milhões de pessoas encontram proteção, conhecimento e significado essencial no direito de desafiar o poder, questionar a ortodoxia, expor a corrupção e enfrentar a opressão, o preconceito e o ódio.

Na FFS, acreditamos que uma cultura de liberdade de expressão robusta e resiliente deve ser a base para o futuro de qualquer sociedade livre e democrática. Acreditamos que, mesmo diante das rápidas mudanças tecnológicas que trazem novos desafios e ameaças, a liberdade de expressão deve continuar a ser um ideal essencial e um direito fundamental para todas as pessoas, independentemente de raça, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual, gênero ou condição social.

A Recessão Global da Liberdade de Expressão

A liberdade de expressão tem estado em declínio global há mais de uma década. Se não for contida, essa deterioração ameaça a liberdade individual, a sociedade civil e as instituições democráticas, bem como o progresso na ciência e na filosofia. Há muitas razões para o declínio global da liberdade de expressão, incluindo o avanço do autoritarismo em todos os continentes. Mesmo nas sociedades abertas, a democratização e a viralidade do discurso online são cada vez mais vistas como uma ameaça, em vez de uma pré-condição para sociedades bem-funcionais, livres, tolerantes e pluralistas. Ameaças — reais e imaginárias — provenientes do discurso de ódio, do extremismo, do terrorismo e da desinformação levaram a pedidos de regulação mais rígida do discurso, tanto por governos autoritários quanto democráticos, empresas de redes sociais, indivíduos e ONGs. Para mencionar apenas um exemplo, o coronavírus gerou não apenas uma emergência global de saúde pública, mas também uma pandemia global de censura, com muitos governos apressando-se para suprimir a desinformação, enquanto outros aproveitaram a oportunidade para ampliar seu controle sobre a imprensa e as opiniões online. Tais medidas colocam tanto o valor quanto o direito à liberdade de expressão sob pressão, ao mesmo tempo que desafiam os defensores da liberdade de expressão a reexaminar, atualizar e aprimorar os argumentos sobre sua importância. As lições históricas são fundamentais para compreender o valor da liberdade de expressão, mas na era digital, em que a propaganda e a desinformação podem percorrer o globo em segundos, não basta mais depender exclusivamente de argumentos testados e comprovados de eras anteriores.

O que fazemos

Para compreender e combater melhor o declínio da liberdade de expressão, a FFS busca responder a três grandes questões: Por que a liberdade de expressão está em declínio global? Como podemos compreender e conceitualizar melhor os benefícios e os danos da liberdade de expressão? E como podemos criar uma cultura global resiliente de liberdade de expressão que beneficie a todos? Os objetivos são entender melhor por que precisamos da liberdade de expressão e explicar de forma mais convincente por que a liberdade de se expressar é tão fundamental. Também buscaremos extrapolar como podemos proteger a liberdade de expressão ao mesmo tempo que abordamos preocupações legítimas em torno da desinformação, do extremismo e do discurso de ódio.

Para isso, desenvolvemos um trabalho em três frentes: (1) Por meio de pesquisas e levantamentos, mediremos as atitudes globais em relação à liberdade de expressão e analisaremos se as preocupações e os argumentos comuns usados para justificar restrições à liberdade de expressão se baseiam em danos reais ou imaginários. (2) Defendendo e fortalecendo os padrões existentes necessários para resistir à deterioração autoritária global da liberdade de expressão. (3) Por meio de atividades de divulgação, a FFS fornece a ativistas, formuladores de políticas, acadêmicos e outras partes interessadas os dados, argumentos e padrões necessários para ajudar a reverter o que a FFS denomina a recessão da liberdade de expressão.

Em última análise, a FFS tem como objetivo gerar conhecimento e despertar o engajamento necessário para energizar ativistas, persuadir céticos, resistir a autoritários e fomentar uma cultura global resiliente de liberdade de expressão.

O Dangerous Speech Project

O Dangerous Speech Project é uma equipe de pesquisa apartidária e sem fins lucrativos que estuda o discurso perigoso: qualquer forma de comunicação que possa aumentar o risco de que um grupo de pessoas se volte violentamente contra outro grupo. Buscamos encontrar as melhores formas de combater esse fenômeno, ao mesmo tempo em que protegemos a liberdade de expressão. Não fazemos parte de uma universidade ou de qualquer outra instituição.

Nossa Missão

Vislumbramos um mundo livre de violência motivada por discursos perigosos, no qual as pessoas também desfrutem plenamente da liberdade de expressão. Capacitamos pessoas para combater o discurso perigoso e a violência que ele catalisa por meio de pesquisa, educação e trabalho de políticas públicas.

O que Fazemos

O DSP atua principalmente em cinco áreas:

  1. Estudar e desenvolver ideias úteis sobre o discurso perigoso e seus danos 

Coletamos e analisamos exemplos históricos e atuais de discurso perigoso ao redor do mundo para compreender melhor a relação entre discurso e violência. Com base nessa pesquisa, elaboramos um guia prático detalhado para identificar e combater o discurso perigoso, on-line e off-line. Nossa seção de Perguntas Frequentes também oferece respostas rápidas sobre o tema.

Por meio do nosso programa de bolsas, encomendamos estudos de caso detalhados e conjuntos de dados sobre discurso perigoso a pesquisadores de diversos países, uma vez que esse tipo de análise é melhor realizado por pessoas fluentes nos idiomas e culturas relevantes.

  • Investigar e avaliar respostas ao discurso perigoso e a outras formas de expressão prejudicial, incluindo o discurso de ódio

Para reduzir os efeitos do discurso perigoso e de outras formas de expressão nociva, estudamos a ampla variedade de métodos – muitos deles criativos e contraintuitivos – que pessoas e organizações da sociedade civil desenvolveram para responder a esse tipo de discurso de forma construtiva, incluindo o contradiscurso. Reunimos muitos desses pioneiros pela primeira vez, tanto em encontros privados quanto públicos, o que tanto enriqueceu nossa pesquisa quanto nosso trabalho como um todo.

  1. Adaptar, contextualizar e disseminar as ideias sobre discurso perigoso para comunidades-chave

Na medida do possível, levamos nossas ideias a pessoas que podem utilizá-las para estudar e combater o discurso perigoso. Além de tornar nossas publicações amplamente acessíveis, realizamos treinamentos e oficinas para diversos grupos, incluindo ativistas, educadores, advogados, pesquisadores, estudantes e funcionários de empresas de tecnologia. Como resultado dessas e de outras iniciativas, nosso trabalho tem sido utilizado para estudar e/ou combater o discurso perigoso em países diversos, como Nigéria, Sri Lanka, Dinamarca, Hungria, Quênia, Paquistão e Estados Unidos.

  1. Assessorar e criticar tomadores de decisão sobre governança do discurso

Como especialistas nas formas pelas quais o discurso gera violência, utilizamos nossa pesquisa para assessorar a indústria de tecnologia sobre como antecipar, minimizar e responder a discursos prejudiciais de maneiras que previnam a violência e, ao mesmo tempo, protejam a liberdade de expressão.

Assessoramos diversas empresas de tecnologia em suas políticas de conteúdo, contribuindo com nossa pesquisa para responder a questões sobre como lidar com discurso de ódio, violência contra mulheres, exércitos de trolls governamentais, regulação de conteúdo durante eleições e discurso inflamatório em países em risco de violência intergrupal significativa.

  1. Promover e proteger a capacidade dos pesquisadores de estudar conteúdo on-line

Acreditamos firmemente que as empresas devem colaborar externamente para pesquisar métodos de redução de comportamentos prejudiciais em suas plataformas – e publicar os resultados de forma transparente. Para isso, somos membros fundadores da Coalizão para Pesquisa Tecnológica Independente, que trabalha para obrigar as empresas a compartilhar seus dados para pesquisas de interesse público, proteger pesquisadores que coletam dados de forma independente das empresas e estabelecer boas práticas para pesquisas éticas de interesse público que respeitem a privacidade.

5. Contexto do Projeto

A Fase 1 da FFS (2020–2023) buscou investigar e reverter a “recessão da liberdade de expressão” e trabalhar em prol de uma cultura resiliente de liberdade de expressão. O projeto cumpriu seus objetivos por meio de atividades de pesquisa e advocacy, trabalhando com uma série de partes interessadas, como empresas de redes sociais, Estados, instituições internacionais e sociedade civil. A FFS buscou investigar as possíveis razões para essa recessão, frequentemente atribuída ao populismo autoritário e à sua repressão à dissidência, à participação da sociedade civil e a uma imprensa independente.

A Fase 2 da FFS (2023–2026) baseia-se nas descobertas da Fase 1 e busca construir um framework pelo qual a liberdade de expressão seja promovida e adotada como um caminho para conter fenômenos online negativos. Nesse sentido, em colaboração com instituições e organizações de excelência, estamos desenvolvendo medidas protetoras do discurso (digitais e analógicas) para combater o ódio, a desinformação e a propaganda. Assim, em vez de desviar do fato de que discursos extremos podem contribuir para danos sérios, a FFS concentra-se em explorar e promover formas não restritivas pelas quais a liberdade de expressão e o acesso à informação possam ser usados para combater o ódio, a desinformação e a propaganda autoritária na era digital. Um dos produtos propostos pela FFS é o presente kit de ferramentas, que visa capacitar usuários da internet, ativistas online e organizações da sociedade civil a utilizar o contradiscurso como mecanismo central para lidar com os danos que acompanham a ágora online de ideias e opiniões. Nesse contexto, fizemos uma parceria com o DSP que, por meio de sua expertise e experiência, desenvolveram o conteúdo deste kit de ferramentas, que esperamos que capacite e inspire os usuários a compreenderem e utilizarem melhor o contradiscurso.

Além disso, em colaboração com o Instituto de Ciência de Dados da Universidade Vanderbilt, a FFS está desenvolvendo um aplicativo baseado em Inteligência Artificial que permitirá aos usuários responder prontamente ao discurso de ódio online utilizando métodos de contradiscurso. Esse aplicativo, alimentado por modelos de linguagem de grande escala (LLMs) como o ChatGPT, permitirá que os usuários carreguem uma publicação ofensiva identificada online e gerem uma resposta de contradiscurso à publicação com a própria voz do usuário. Para configurar e personalizar o aplicativo, ele coleta informações do usuário, como seus valores e amostras de escrita, bem como uma coleção personalizável de documentos contendo estratégias para responder ao discurso de ódio. Adicionalmente, o aplicativo terá acesso a um banco de dados de contexto sobre discurso de ódio, como abreviações e vocabulário usados por grupos extremistas, que poderiam passar despercebidos em um exame inicial do conteúdo. Após essa configuração inicial das preferências do usuário, ele poderá enviar uma publicação ofensiva e o aplicativo elaborará uma resposta a essa publicação.

O objetivo não é automatizar completamente o contradiscurso, mas simplificar e auxiliar os usuários no processo de elaboração de respostas eficazes. A esperança deste projeto é que ele alivie o ônus sobre os praticantes do contradiscurso ao responder à infinidade de discursos de ódio online hoje em dia, além de sustentar a liberdade de expressão.

Esperamos, portanto, que o kit de ferramentas e o aplicativo que virá a seguir sejam úteis para aqueles que trabalham ou desejam trabalhar com o uso do contradiscurso para combater o ódio online.

A Que Conteúdos o Contradiscurso Responde?

Os praticantes do contradiscurso fazem suas próprias escolhas sobre quais conteúdos merecem uma resposta, por isso suas decisões são subjetivas e variadas. Alguns grupos de praticantes designam alguns membros para selecionar os conteúdos aos quais os demais responderão. Em todos os casos, os próprios praticantes decidem não apenas a qual conteúdo, mas também a quais fontes ou autores contestar. Por exemplo, alguns praticantes refutam a propaganda estatal, mesmo que isso às vezes os coloque em risco de retaliação por parte de governos poderosos e vingativos e/ou seus apoiadores.

Quando perguntados sobre que tipo de conteúdo procuram, a maioria dos praticantes de contradiscurso entrevistados pelo DSP responde “discurso de ódio.” Os praticantes também respondem a outros tipos de conteúdo – em todos os casos porque consideram que são prejudiciais – incluindo discurso perigoso, desinformação e conteúdo terrorista, que é em si uma categoria bastante variada. Esses tipos de conteúdo, que podem se sobrepor entre si, são explicados a seguir.

Hate Speech (Discurso de Ódio)

Este é o termo mais comum para conteúdo questionável em inglês, e variações do termo são usadas em outras línguas. Embora não haja uma definição consensual para discurso de ódio, todas as definições descrevem conteúdo que depreciam ou atacam pessoas não como indivíduos, mas por fazerem parte de algum tipo de grupo humano.

Portanto, se uma criança diz à sua mãe “eu te odeio”, isso não é discurso de ódio, porque a emoção é dirigida à mãe em si e por ela mesma, não como membro de qualquer grupo. Além disso, espera-se que a emoção da criança não seja forte ou duradoura o suficiente para constituir ódio – embora também não haja consenso sobre o que exatamente significa “ódio.” O “discurso de ódio” raramente é codificado ou definido em lei. As Nações Unidas, em sua Estratégia e Plano de Ação sobre Discurso de Ódio, ofereceram esta definição bastante ampla: “qualquer tipo de comunicação em discurso, escrita ou comportamento que ataca ou usa linguagem pejorativa ou discriminatória com referência a uma pessoa ou grupo com base em quem eles são, ou seja, com base em sua religião, etnia, nacionalidade, raça, cor, descendência, gênero ou outro fator identitário.”Não existe definição de discurso de ódio no direito internacional dos direitos humanos. As Nações Unidas observam que o conceito ainda está em discussão.”

Discurso Perigoso

O discurso perigoso é qualquer forma de expressão (incluindo fala, texto ou imagens) que pode aumentar o risco de que seu público tolere ou participe de violência contra membros de outro grupo. Alguns praticantes do contradiscurso optam por responder ao discurso perigoso por ser uma categoria menor e mais objetiva do que o discurso de ódio, e por considerarem a violência intergrupal um dano especialmente importante a tentar prevenir. O grupo de praticantes de contradiscurso #wearehere, do Canadá, por exemplo, busca o discurso perigoso e responde a ele.

A ideia de discurso perigoso surgiu após o DSP notar semelhanças marcantes na retórica que líderes usam para provocar violência em países, culturas e períodos históricos completamente diferentes. Uma dessas “marcas registradas” ou padrões recorrentes no discurso perigoso é a desumanização – ou seja, referir-se a pessoas de outro grupo como insetos, animais desprezíveis ou perigosos, bactérias ou câncer. A retórica por si só não pode tornar o discurso perigoso, e o contexto em que é comunicado é igualmente importante.

> Para mais informações sobre #iamhere (da qual #wearehereCanada faz parte), veja a seção de Exemplos.

Desinformação e Informação Incorreta (‘misinformation’)

Ambos os termos se referem à falsidade. A desinformação é difundida por pessoas que sabem que é falsa, e a informação incorreta (misinformation) é difundida por pessoas que, por engano, acreditam que é verdadeira – portanto, o mesmo conteúdo pode ser tanto desinformação quanto informação incorreta, dependendo de quem o dissemina. Em qualquer caso, pode produzir danos significativos e mensuráveis. Um exemplo recente proeminente são as afirmações de que a COVID não era nem de longe tão perigosa quanto as vacinas contra ela. Em resposta a esse conteúdo, muitas pessoas se recusaram a ser vacinadas e algumas delas morreram desnecessariamente como resultado. Outro exemplo é a afirmação da Rússia, antes de invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022, de que uma das principais razões para a invasão era que a Ucrânia estava sendo governada por nazistas— quando seu presidente, Volodymyr Zelensky, é judeu.

Os praticantes do contradiscurso frequentemente tentam refutar a desinformação e a informação incorreta (misinformation) na esperança de proteger as pessoas contra elas, persuadindo-as de que são falsas. O maior grupo coletivo de contradiscurso, o #jagärhär ou “estou aqui” em sueco, fundado em 2016, frequentemente organiza seus membros para contrariar informações incorretas odiosas. Em um caso, os comentários sob uma matéria que relatava vários casos confirmados de peste bubônica na China estavam repletos de observações chamando a China de “país contagioso”, além de muitas sugerindo que eram as dietas dos chineses que causavam a doença. Em resposta, membros do #jagärhär escreveram comentários contestando a ideia de que as dietas dos chineses são singularmente perigosas, corrigindo informações incorretas sobre a peste e classificando muitos dos comentários como racistas.

 > Para mais informações sobre o #iamhere, veja a seção de Exemplos.

Conteúdo Terrorista e Extremista Violento (CTEV)

Conteúdo terrorista e extremista violento (CTEV) é um termo usado por alguns governos e empresas de tecnologia para descrever uma variedade de conteúdos que glorificam ou promovem o terrorismo, e que podem ser usados para recrutar pessoas como terroristas. O Departamento de Assuntos Internos da Nova Zelândia define o CTEV como “material odioso ou questionável (ilegal) que promove visões extremistas prejudiciais, como:

  • Artigos, imagens, discursos ou vídeos que promovem ou encorajam a violência.
  • Sites criados por organizações terroristas ou extremistas.
  • Vídeos de ataques terroristas e qualquer outro conteúdo que promova o extremismo violento.

A contranarrativa é frequentemente usada para tentar minar o conteúdo que grupos extremistas utilizam para cultivar novos membros. Na maioria dos casos, tais campanhas de contranarrativa são concebidas para alcançar as pessoas antes mesmo de encontrarem o CTEV online, para que não sejam tão suscetíveis ao recrutamento. Um exemplo são os vídeos animados de contranarrativa chamados Average Mohamed, cujo personagem principal é um imigrante somali nos Estados Unidos. Em um exemplo, Average Mohamed pergunta “qual você acha que é sua descrição de cargo ao se juntar ao Estado Islâmico?” e então responde à sua própria pergunta: matar, decapitar e aterrorizar pessoas inocentes, destruir patrimônios históricos e empoderar pessoas não eleitas e cruéis. “Não é exatamente a Disneyworld… como a propaganda diz que é, certo?”, ele diz.

O CTEV é proibido na maioria das plataformas digitais, e frequentemente ilegal em diversas jurisdições, por isso, ao planejar estratégias de contradiscurso e contranarrativa, é importante ter em mente que o conteúdo original provavelmente será excluído em algum momento.

 

Objetivos do Contradiscurso

Quando as pessoas escolhem responder ao discurso de ódio em vez de simplesmente ignorá-lo, frequentemente têm uma variedade de motivações e um objetivo abrangente que compartilham com muitos outros praticantes: melhorar o discurso online.

Muitos praticantes afirmam que suas publicações e comentários visam principalmente aqueles que leem o discurso de ódio — os espectadores silenciosos — em vez daqueles que o escrevem. Alguns esperam mudar as visões dos espectadores do “meio movível” (movable middle) — pessoas que leem discussões online acaloradas entre pessoas com visões opostas, mas que não têm crenças fortes sobre os temas em si. Alguns praticantes de contradiscurso também tentam alcançar pessoas que já concordam com eles, mas ainda não ousam expressar essas visões online. Recrutar novos praticantes com ideias afins aumentaria a quantidade de contradiscurso — e é mais fácil fazer isso sem mudar a visão de ninguém. Outros praticantes (e alguns dos mesmos) têm outro objetivo: apoiar pessoas que foram desqualificadas ou atacadas pelo discurso de ódio, buscando mitigar os impactos negativos do discurso sobre seus alvos. Há também praticantes que tentam persuadir aqueles que publicam comentários odiosos a parar — seja educando-os ou usando táticas de pressão social, como a exposição pública ao constrangimento (shaming). Mudar a opinião ou o comportamento do autor original com o contradiscurso parece ser mais difícil do que influenciar o público, mas não é impossível. Na verdade, o contradiscurso online já conseguiu isso de forma notável.

Um exemplo bem documentado é o de Megan Phelps-Roper, criada na isolada e de extrema-direita Igreja Batista de Westboro, fundada por seu avô. Já na adolescência, ela fez tudo o que pôde para difundir seu virulento ódio à homossexualidade e a pessoas gays, além de outros discursos perigosos da igreja, inclusive em uma conta no Twitter que ela criou com esse propósito. Lá, o contradiscurso online de desconhecidos lentamente a levou a questionar suas fervorosas crenças, até que ela deixou Westboro, foi excomungada pela família e tornou-se praticante do contradiscurso contra suas próprias antigas visões. Phelps-Roper publicou um livro descrevendo suas experiências e, nele e em um TED talk, oferece ideias para praticar o contradiscurso de forma convincente.

Para mais informações sobre Megan Phelps-Roper, veja a seção de Exemplos.

 

 

 

Estratégias Utilizadas no Contradiscurso

O contradiscurso assume muitas formas diferentes, e os praticantes utilizam uma variedade de estratégias comunicativas. A seguir, são descritas algumas das mais comuns ou instigantes.

 

Amplificação

A resposta mais comum ao conteúdo prejudicial ou questionável online — assim como a qualquer outra coisa ofensiva — é tentar eliminá-lo ou desejar que outra pessoa o fizesse desaparecer. Alguns, no entanto, fazem o oposto: chamam mais atenção para conteúdos odiosos ou prejudiciais, disseminando-os amplamente ou literalmente tornando-os maiores ou mais visíveis. O DSP denominou essa estratégia de “amplificação.”

Aqueles que usam a amplificação em suas respostas frequentemente pegam conversas entre um pequeno número de pessoas e as publicam em um fórum muito maior (online ou offline) para que muito mais pessoas as vejam. Isso pode parecer contraintuitivo: por que criar uma plataforma maior para discursos prejudiciais ou ofensivos quando o objetivo final é reduzir a quantidade de ódio online?

Chamar a atenção de um público maior para conteúdos ruins pode ser uma tática educacional — por exemplo, mostrando aos homens o tipo de assédio que as mulheres enfrentam online. A amplificação também pode obrigar as pessoas a refletir sobre verdades desconfortáveis e importantes que conhecem, mas não gostam de admitir. Por exemplo, o projeto brasileiro de contradiscurso Espelhos do Racismo (Mirrors of Racism) coletou publicações racistas de redes sociais e as estampou em letras grandes em outdoors. Um homem branco brasileiro entrevistado logo após passar por um dos outdoors disse que pessoas como ele afirmam que o país não é racista, mas o outdoor demonstrou o quão falsa essa afirmação é.

Em segundo lugar, quando um conteúdo é oferecido a um público maior, é muito provável que pelo menos alguns membros desse novo público não compartilhem as mesmas normas discursivas do autor original. O novo público pode reagir com contradiscurso, refletindo suas próprias normas.

> Para mais informações sobre o projeto Espelhos do Racismo, veja a seção de Exemplos.

Empatia

Alguns praticantes do contradiscurso usam linguagem empática como ferramenta para mudar o tom do discurso online. Eles respondem com compaixão àqueles que publicam ódio, tentando se conectar com eles e fazê-los sentir que são ouvidos e compreendidos. Isso pode ajudar a mudar comportamentos ou até crenças. Por exemplo, Dylan Marron, ator, escritor e criador de conteúdo online, entrou em contato com leitores que lhe haviam enviado mensagens maldosas e odiosas, e os convidou a conversar por telefone. Quando alguns aceitaram, ele praticou o que chama de “empatia radical”, e apresentou esses esforços em uma série de podcasts e um livro, ambos chamados Conversations with People Who Hate Me (“Conversas com Pessoas que Me Odeiam”).

Os praticantes do contradiscurso também usam linguagem empática para alcançar pessoas que são alvo de discurso hostil online e para estabelecer normas de discurso civilizado em determinados espaços online. Para ver que o contradiscurso baseado em empatia pode produzir transformações dramáticas, basta observar o caso de Megan Phelps-Roper, cujas crenças e vida foram transformadas pelo contradiscurso online. Ela relata que o tom empático de alguns praticantes que se engajaram com ela fez toda a diferença. Eles a alcançaram em um nível pessoal, discutindo tópicos como música e comida. Como Phelps-Roper descreve:

“Eu estava conhecendo essas pessoas e começando a sentir que me tornava parte dessa comunidade, mesmo que não fossem amizades próximas. Não era que eu conscientemente pensava ‘ah, não quero ofender essas pessoas’, mas definitivamente se tornou um sentimento de que eu queria comunicar nossa mensagem de uma forma que eles pudessem ouvir. Passei a me importar com o que pensavam.”

Phelps-Roper cita esse crescente senso de comunidade entre ela e aqueles que respondiam a ela como uma razão primária para o sucesso dos esforços de contradiscurso.

> Para mais informações sobre Megan Phelps-Roper, veja a seção de Exemplos.

 

Educação

O contradiscurso educacional ocorre quando as pessoas respondem diretamente a uma mensagem odiosa ou prejudicial online de uma forma que fornece ao autor ou ao público novas informações, em vez de meramente divulgar seu comportamento para envergonhá-lo.

Nas entrevistas do DSP com praticantes do contradiscurso, muitos disseram que educar as pessoas (seja o autor do ódio ou o público) é seu objetivo principal. Os praticantes podem corrigir informações incorretas odiosas, explicar por que essas mensagens são odiosas ou até amplificar o discurso odioso como método de educar outros sobre sua existência e a necessidade de intervenção.

Um exemplo proeminente dessa abordagem é o movimento sueco #jagärhär (“estou aqui” em sueco) e seus grupos irmãos de contradiscurso em mais de uma dúzia de outros países. Mina Dennert, jornalista sueca, fundou o #jagärhär em 2016 depois de notar um aumento repentino na xenofobia e em outros tipos de ódio online, começou a respondê-los e então recrutou outros para ajudar. Ela descreveu os primeiros dias: “Eu costumava falar com as pessoas que seguiam os blogueiros do ódio e os sites de notícias falsas, fazendo perguntas a elas e fornecendo links para informações verificadas, numa tentativa de interromper a retórica do ‘nós contra eles’ e ajudar as pessoas que foram levadas a acreditar nas mentiras, estavam com muito medo e sendo incitadas a odiar imigrantes, muçulmanos e mulheres. Criei o grupo para obter ajuda de meus amigos para me ajudar a ajudar as pessoas a se libertarem de seus medos e ódios.”

> Para mais informações sobre #jagärhär, veja a seção de Exemplos.

Humor

Alguns praticantes escrevem respostas humorísticas, por uma variedade de razões. Primeiro, isso atrai leitores, já que a maioria das pessoas adora humor. Também é um alívio para os praticantes, especialmente quando estão respondendo a ataques contra si mesmos. Hasnain Kazim, jornalista alemão cujos pais imigraram para a Alemanha vindos do Paquistão, foi atacado por causa de seu nome e cor de pele desde criança e recebeu ondas de mensagens de ódio na vida adulta. Suas respostas humorísticas a e-mails odiosos foram uma espécie de mecanismo de enfrentamento, transformando a dor em diversão. Quando publicou alguns deles nas redes sociais, também conquistou fãs fervorosos que lhe pediram para escrever um livro sobre o assunto. Ele já escreveu três.

“Muitas vezes tento encarar com humor, mesmo que não me sinta com vontade de rir quando leio as cartas”, escreve Kazim. “O humor é uma forma de lidar com todo o ódio, de suportá-lo, de tolerá-lo.” O humor é uma boa arma contra o medo, ele continua, e então acrescenta: “Idealmente, o humor também é uma arma contra os odiadores — quando consegue atingi-los, desmascarando-os ou pelo menos forçando-os a pensar. Isso nem sempre funciona, mas ocorre com frequência suficiente para que valha a pena seguir esse caminho. O importante é nunca retribuir o ódio. Caso contrário, você já perdeu desde o início.”

Membros do Reconquista Internet (RI), um grupo organizado de contradiscurso fundado pelo comediante alemão Jan Böhmermann em 2018, também usam frequentemente o humor. O grupo foi criado para contrariar o discurso odioso difundido por outro grupo — o Reconquista Germanica (RG), “um grupo de ódio altamente organizado que visava perturbar discussões políticas e promover o partido populista de direita e nacionalista Alternative für Deutschland (AfD)”. Como os membros do RI estavam focados em um grupo específico de adversários, às vezes usavam o humor para incomodar os membros do RG, inclusive inundando servidores Discord com expressões idiomáticas alemãs traduzidas ao pé da letra para o inglês “porque nos fazia rir”, disse um membro.

O humor pode levar alguém que publica ódio a mudar de ideia — especialmente quando é o alvo da piada — mas muitas vezes pode atrair atenção ou tornar o contradiscurso divertido para quem o pratica, o que por sua vez pode tornar as pessoas mais dispostas a continuar praticando-o ao longo do tempo.

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Exposição Pública ao Constrangimento (Shaming)

A exposição pública ao constrangimento online é comumente usada para punir discursos ou comportamentos, tanto online quanto offline, e sempre destaca a discordância entre as normas de um grupo e o comportamento de outra pessoa. O shaming ridiculariza alguém, frequentemente em um grande fórum público, e serve como advertência a outros sobre o que pode acontecer quando alguém viola as normas do grupo.

Um exemplo precoce e famoso de shaming online é o caso de Justine Sacco. Como o jornalista Jon Ronson descreve em seu livro So You’ve Been Publicly Shamed (“Então Você Foi Publicamente Constrangido”, 2015), em 2013, Sacco, uma executiva de relações públicas, publicou comentários insultuosos sobre pessoas de vários países durante uma longa viagem, sugerindo que ingleses teriam dentes mal-cuidados e que pelo menos um alemão não usava desodorante. Então, pouco antes de embarcar em um longo voo para a Cidade do Cabo, Sacco tuitou: “Indo para a África. Espero não pegar AIDS. Brincadeira. Sou branca!”

Quando pousou, dezenas de milhares de pessoas já haviam respondido furiosamente ao seu tuíte e ela era o assunto mais comentado no mundo inteiro no Twitter. Alguns corrigiram seu erro (talvez intencional), apontando que pessoas brancas também podiam contrair AIDS. A indignação rapidamente se transformou em alegria para algumas pessoas, que aguardavam ansiosamente o pouso do avião de Sacco para assistir à sua reação ao descobrir sua própria queda. Criou-se até uma hashtag — #HasJustineLandedYet (“Justine já pousou?”) — e um homem foi recrutado na África do Sul para ir ao aeroporto de Cidade do Cabo, fotografá-la e compartilhar a imagem com a multidão virtual. Sacco foi logo demitida de seu emprego, entre outros impactos concretos em sua vida. Muitas outras pessoas também são demitidas após passarem por shaming online.

 

Considerações Práticas

Antes de se engajar no contradiscurso, você deve conhecer os riscos envolvidos. Os praticantes são às vezes criticados e atacados pelo que fazem. Esses riscos são ainda maiores para aqueles que se manifestam contra um regime autoritário. Se você está pensando em se tornar um praticante do contradiscurso, é importante aprender a se proteger antes de começar.

A PEN America, uma ONG que trabalha para defender a liberdade de expressão, escritores e a literatura, produziu as Diretrizes para a Prática Segura do Contradiscurso como parte de um “manual de campo” para lidar com o assédio online. O guia recomenda primeiro avaliar a ameaça, tanto em termos de segurança física quanto digital. Os riscos de segurança dependem do contexto. Alguns fatores a considerar são: sua localização, a quem — e sobre qual tema — você está respondendo, e quanta informação pessoal sua está disponível online.

As estratégias que você usa em sua resposta também podem ajudá-lo a se proteger. Engajar-se ao lado de outros pode ajudar, pois significa que você não será um alvo solitário e outros praticantes podem rapidamente apoiá-lo se você for atacado online. Evitar respostas diretas a um indivíduo também pode ajudar a evitar conflitos. Em vez disso, concentre-se em praticar o contradiscurso de formas que possam influenciar positivamente outros que possam estar lendo seus comentários — são também as pessoas que você tem maior chance de persuadir. Você também pode “curtir” o contradiscurso escrito por outros, o que amplifica a fala deles enquanto limita sua exposição pessoal.

Exemplos

a. #iamhere

O #iamhere é uma rede coletiva internacional de contradiscurso fundada por Mina Dennert na Suécia em 2016. Tem mais de 150 mil membros e está ativa em 17 países. Os membros trabalham juntos por meio de grupos nacionais no Facebook para escrever, publicar e amplificar seu contradiscurso, que responde a comentários em artigos de notícias publicados no Facebook. Os membros seguem um conjunto de regras ao elaborar seu contradiscurso, que inclui manter um tom respeitoso e não arrogante e nunca difundir preconceitos ou rumores. Para cumprir sua missão, os membros do #iamhere buscam no Facebook comentários odiosos em artigos de notícias e páginas públicas e os encaminham a administradores, que selecionam alguns para o grupo inteiro refutar. Em um esforço conjunto, os membros então publicam e curtem os comentários uns dos outros baseados em fatos nos tópicos relevantes. Aproveitando o sistema de classificação do Facebook, que prioriza comentários com base no engajamento (curtidas e respostas), eles conseguem elevar suas próprias respostas civilizadas e relegar os comentários odiosos ou xenofóbicos dos outros ao final dos tópicos, onde dificilmente serão vistos.

Os membros do #iamhere afirmam tentar amplificar comentários logicamente argumentados, bem escritos e baseados em fatos, independentemente de terem sido escritos por membros ou não. O objetivo é alcançar um público mais amplo, incluindo aqueles que rolam casualmente por seus feeds do Facebook — o chamado “meio movível”, e influenciar suas opiniões sobre o assunto em questão com contraargumentos lógicos e factuais. Muitos membros também praticam o contradiscurso para mostrar aos outros que não estão sozinhos em se opor ao discurso de ódio, já que as seções de comentários podem criar uma impressão de ódio generalizado que não é necessariamente representativa da maioria. Ao compartilhar discordância e promover um diálogo mais construtivo, eles capacitam outras pessoas que talvez tenham permanecido em silêncio a expressar seus pontos de vista e se juntar à conversa como colegas contra-discursistas. O #iamhere prospera por meio de esforços colaborativos e do uso estratégico da plataforma do Facebook para fomentar uma cultura de tolerância, compreensão e discurso factual. Por meio de suas ações dedicadas, eles se empenham em criar um ambiente virtual no qual a retórica de ódio seja abafada e as vozes da razão e da compaixão prevaleçam.

b. Espelhos do Racismo (Mirrors of Racism)

A campanha brasileira Espelhos do Racismo serve como um exemplo marcante do uso da amplificação estratégica para responder ao ódio. Em 2015, a jornalista Maria Julia Coutinho (amplamente conhecida pelo apelido Maju) tornou-se a primeira apresentadora de previsão do tempo negra no telejornal de horário nobre Jornal Nacional. Esse momento histórico desencadeou uma onda de racismo online, com alguns brasileiros descarregando correntes de ódio não apenas contra Maju, mas também contra outros brasileiros negros.

Em resposta, a Criola, organização brasileira de direitos civis das mulheres, uniu forças com a agência de publicidade W3haus para conceber uma campanha antirracismo. Elas decidiram enfrentar o problema de frente, coletando comentários racistas vívidos e crus. Essas declarações ofensivas foram então estampadas em letras enormes em outdoors, estrategicamente colocados em cinco cidades brasileiras nos bairros onde os infratores haviam publicado os comentários online. Cada outdoor também exibia em destaque a frase “Racismo virtual, consequências reais.”

“A estratégia da campanha foi tirar o racismo da internet e expô-lo nas ruas para que a população (da região) pudesse se conscientizar dos danos causados por esses atos virtuais”, disse a Coordenadora Geral da Criola, Lúcia Xavier. Para amplificar ainda mais a mensagem e o conteúdo da campanha, a W3haus realizou entrevistas com brasileiros sobre a campanha e compartilhou os vídeos resultantes. Um dos vídeos mostrava as reações de pedestres na rua ao se depararem com os outdoors. Nesse vídeo, um homem branco de meia-idade comentou que alguns brasileiros tendem a ignorar a existência do racismo, mas que o outdoor conseguiu chamar a atenção de forma eficaz para essa questão urgente. Em outro vídeo, a pessoa responsável por uma das postagens racistas apareceu diante do outdoor que exibia sua própria declaração ofensiva e a foto de perfil borrada, e pediu desculpas a uma mulher negra. Esses vídeos foram posteriormente publicados on-line, o que ampliou o alcance da campanha muito além das comunidades onde os outdoors estavam localizados, disseminando amplamente a mensagem antirracista.

c. Hasnain Kazim

Para Hasnain Kazim, jornalista alemão que escreve sobre temas como política de refugiados e a ascensão do partido populista de direita Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha, receber mensagens de ódio é uma fonte constante de sofrimento. Embora tenha nascido na Alemanha e crescido em uma pequena cidade do país, as pessoas frequentemente presumem, por causa de seu nome paquistanês e pele morena, que ele é estrangeiro, e lhe enviam mensagens furiosas dizendo que ele não tem o direito de comentar sobre assuntos alemães. A maioria o ataca por ser muçulmano (o que ele não é) e faz comentários odiosos, muitas vezes violentos, sobre muçulmanos e o Islã em geral. Alguns fazem perguntas às quais Kazim responde, frequentemente de forma extensa. Diferentemente da maioria dos contra-discursistas, que respondem apenas uma vez a cada conteúdo, Kazim se envolve em alguns diálogos prolongados com os leitores, às vezes tentando, com muita paciência, educá-los sobre temas como o uso do hijab ou a liberdade de expressão, e às vezes trocando farpas.

Em 2016, impulsionado pelo aumento da xenofobia — semelhante ao que inspirou Mina Dennert a criar o grupo #iamhere — Kazim decidiu responder ao maior número possível de mensagens de ódio, muitas vezes com humor. Ele de fato respondeu a centenas de mensagens. Embora essa tarefa fosse tanto demorada quanto desanimadora, Kazim escreve que considerava importante resistir ao tipo de ódio vicioso e violento frequentemente direcionado a ele. “O que me assusta”, ele escreve, “é perceber uma erosão da resistência” a esse tipo de ódio na sociedade alemã. Em um dos casos, um leitor identificado apenas como “Christ2017” escreveu a Kazim para perguntar: “O senhor come carne de porco, Sr. Kazim?” “Não”, respondeu Kazim. “Eu como apenas elefante e camelo. Elefante bem passado, e prefiro meu camelo malpassado.” “Você quer ser alemão, mas não come carne de porco?!” Christ2017 prosseguiu chamando Kazim, sem nenhuma ironia, de ‘porco islâmico’. “Não sabia que todos os alemães comem carne de porco. Obrigado pelo esclarecimento, agora eu sei: carne de porco é a cultura de referência alemã! Ai de quem eu encontrar no próximo churrasco que não enfiar uma salsicha de porco na boca ou que seja, ah, pior ainda, pior que o pior dos islâmicos, um vegetariano!”, respondeu Kazim. Christ2017 então o ameaçou: “Fique bem quietinho como hóspede islâmico em nosso país!”

Em pelo menos uma ocasião, quando o autor de ameaças violentas incluía detalhes de sua profissão, seja de forma descarada ou acidental, Kazim o denunciou ao seu empregador. Um desses casos ocorreu em agosto de 2020, depois que Kazim recebeu um e-mail no qual diziam que ele deveria “primeiro ser bem espancado, depois esquartejado e pendurado pelos próprios intestinos”, e que ele era um “nojento e sujo parasita estrangeiro” que ousava “falar contra o orgulhoso povo alemão”. O autor era um representante de vendas de uma empresa alemã e havia enviado o e-mail a partir de seu endereço corporativo. Kazim encontrou os dados de contato do empregador e enviou o conteúdo do e-mail à diretoria da empresa, alertando que, caso nenhuma medida fosse tomada contra o funcionário, uma grande importância seria dada à situação. Algum tempo depois, encaminharam a Kazim uma cópia da carta de demissão do homem. Kazim reuniu muitos exemplos das mensagens de ódio que recebeu, junto com suas respostas, e os publicou com comentários extensos e instigantes em um livro chamado Post von Karlheinz (“Cartas de Karlheinz”), em 2018. O livro vendeu mais de 100 mil cópias. No momento em que este texto foi escrito, ainda não havia sido traduzido para o inglês ou outros idiomas. Desde então, Kazim publicou outros dois livros relacionados ao contradiscurso, incluindo Auf sie mit Gebrüll! … und mit guten Argumenten (Vai pra cima deles com um rugido!… e com bons argumentos) e Mein Kalifat: Ein geheimes Tagebuch, wie ich das Abendland islamisierte und die Deutschen zu besseren Menschen machte (Meu Califado: Um diário secreto de como islamizei o Ocidente e tornei os alemães pessoas melhores).

d. Reconquista Internet

O Reconquista Internet (RI) foi lançado no final de abril de 2018 pelo apresentador de TV e comediante alemão Jan Böhmermann, que o anunciou durante seu popular programa de notícias satíricas, Neo Magazin Royal. Böhmermann compartilhou um link para um grupo privado no Discord em seu Twitter, atraindo impressionantes 8.700 membros nas primeiras três horas.

O RI é incomum por ter sido criado para responder a conteúdos de uma fonte específica: o Reconquista Germanica (RG), um grupo de ódio altamente organizado que perturbava discussões políticas e promovia o partido populista nacionalista de direita Alternative für Deutschland (AfD).

O lema do RI é: “Wir sind nicht GEGEN etwas. Wir sind FÜR Liebe und Vernunft und ein friedliches Miteinander” (“Não somos CONTRA nada. Somos PELO amor e razão e pela coexistência pacífica”). Alguns membros, no entanto, mantêm o chamado inicial à ação, que incluía um lema bastante diferente: “Somos os idiotas que estragam a diversão na internet para os idiotas que estragam a diversão na internet para nós.” Para eles, “estragar a diversão” para os membros do RG incluía muitos tipos diferentes de respostas — como infiltrar os canais Discord do RG e inundá-los com expressões idiomáticas alemãs traduzidas para o inglês “apenas porque nos fazia rir”. Muitos membros do RI, no entanto, seguiram a sugestão de “trollar com amor”, evitando o vitupério e o ódio em suas respostas. Joshua Garland e seus colegas estudaram o impacto do RI no discurso online na Alemanha, coletando mais de 9 milhões de tweets originários do RG e do RI. Os autores criaram um classificador para identificar e codificar discursos como discurso de ódio, contradiscurso ou nenhum dos dois. Em 135.500 “conversas totalmente resolvidas no Twitter” ocorridas entre 2013 e 2018, os autores constataram que, após a formação do RI, a intensidade e a proporção do discurso de ódio aparentemente diminuíram. Os autores observam que “esse resultado sugere que o contradiscurso organizado pode ter ajudado a equilibrar o discurso polarizado e odioso, embora a causalidade seja difícil de estabelecer dado o complexo conjunto de eventos e processos online e offline na sociedade mais ampla ao longo desse período” (p.109).

e. Megan Phelps-Roper

Quando Megan Phelps-Roper ainda engatinhava, seu avô Fred Phelps, pregador que fundou a pequena Igreja Batista de Westboro, ficou indignado com alegações de que homens gays estavam se encontrando para fazer sexo em um parque próximo. Em 1991, ele enviou membros da igreja para marchar em frente ao parque carregando cartazes ferozmente homofóbicos. Eles continuaram, diariamente, mesmo depois que manifestantes contrários chegaram com raiva.

À medida que Phelps-Roper crescia, crescia também a nova prática característica da igreja: os protestos. Ela e sua família extensa marcharam por todos os Estados Unidos, inclusive nos funerais de soldados americanos mortos no Iraque e no Afeganistão, para difundir a ideia de Fred Phelps de que a morte de qualquer soldado americano era um castigo de Deus contra o país inteiro por tolerar a homossexualidade. Na adolescência, Phelps-Roper criou uma conta no Twitter e, em 2009, começou a usar a plataforma para difundir o ódio de Westboro. Seu número de seguidores cresceu rapidamente, mas muitas pessoas contestaram seus tuítes, praticando o contradiscurso contra as ideias que ela tentava difundir. Gradualmente, suas convicções inabaláveis foram mudando.

Dois tipos de mensagens foram particularmente eficazes em lhe gerar dúvidas, disse Phelps-Roper. Primeiro, pessoas com conhecimento e crença religiosa (incluindo um rabino) questionaram a interpretação da Bíblia pelo Westboro. Dentre os argumentos contra suas ideias, ela diz que aqueles que permaneciam no território do ensino bíblico eram os mais propensos a alcançá-la. “Argumentos ateístas estavam tão longe do que eu poderia ter feito que não eram tão eficazes”, disse ela. Em vez disso, eram aqueles que “aceitavam as premissas de minhas crenças (a Bíblia), mas então tentavam encontrar inconsistências dentro dela. Foi isso que abriu todo o resto.”[3]

O segundo tipo de mensagem que influenciou Phelps-Roper veio de pessoas que a abordavam com educação e tentavam se conectar com ela em um nível pessoal, discutindo temas sem relação com seus próprios tuítes, como música e comida. Ela formou amizades com algumas dessas pessoas e cita um crescente senso de comunidade entre ela e aqueles que respondiam a ela como uma razão primária para o sucesso dos esforços de contradiscurso. Em vez de julgar suas crenças e comportamento com base nas normas de uma comunidade da qual ela não fazia parte, os praticantes do contradiscurso primeiro tentaram conhecê-la. Uma vez que ela sentiu um senso de comunidade com eles, as normas deles passaram a ter significado para ela. Em novembro de 2012, ela deixou a igreja.

Logo após deixar o Westboro, Phelps-Roper decidiu continuar seu trabalho no Twitter. Mas em vez de difundir ódio, dedicou-se ao contradiscurso. Hoje ela emprega muitas das mesmas táticas que outrora foram usadas contra ela: utilizando argumentos factuais, tentando encontrar pontos em comum e reconhecendo a humanidade em outros usuários do Twitter.

Em 2017, ela fez uma palestra com orientações para praticantes do contradiscurso, e em 2019 publicou um livro sobre suas experiências intitulado Unfollow: A Memoir of Loving and Leaving Extremism (“Deixar de Seguir: Memórias de Amar e Abandonar o Extremismo”).

 


Recursos Adicionais

Pesquisas e recursos do Dangerous Speech Project

Outras publicações acadêmicas

Recursos de outras ONGs

Hub de Contradiscurso do Facebook

Observações Finais

O Future of Free Speech agradece às instituições abaixo por todo o apoio na criação deste material.

 

 

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Contato com a Imprensa
Ajdin Muratovic
Diretor de Comunicações
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